(continuação do Post "Crónica de um dia")
As padarias estão todas fechadas. No tempo do fascismo, há menos de um ano, os cabrões dos padeiros trabalhavam sábados, domingos e feriados, sem barafustar, agora, nem um segundo, para além da hora de saída. Por outro lado, havia, por perto, dois ou três merceeiros, de sebenta e lápis rombo, atrás da orelha, fugiram. Encerraram a porta e ala, para a terra, cagadinhos de medo. Os tipos tiveram receio do comunismo, mas ultimamente ganhavam à farta, pudera... O pessoal começou a ter no bolso mais uns tostões e toca de comer. Porém, os macacos, os sacanas dos marçanos, não ficaram satisfeitos, preferiam viver a fiar, rapando tudo aos desgraçados dos trabalhadores mal-pagos. Na sebenta assentavam os artigos a crédito, com o cabrão do lápis, por afiar, depois, nas costas dos clientes, tesos, apagavam com uma borracha, escondida, e acrescentavam, por parcela, cinquenta centavos.
Depois, o domingo é um dia de merda, senão vejamos: no tempo do fascismo as mães levantavam-se cedo para lavar as escadas, estender a roupa e ir à missa das oito; os putos, às dez, tinham de estar na catequese e até ao meio-dia marchavam, fardadinhos, nas falanges, perdão, nos escuteiros de Portugal... Agora também já arranjaram ocupação. Arre que estes gajos têm que se enfileirar sempre em qualquer coisa... As missas cheiram a naftalina, a corja dos pomposos do regime deposto enfia-se nas capelas e nos comícios, num lado rogam a Deus que os proteja contra as denúncias, no outro querem mostrar-se em público, de cravo ao peito, para que conste que estão com a nova ordem.
O Sporting foi campeão, vencedor da taça de Portugal e quase se qualificava para a final da taça das taças, no ano passado, no da Revolução, mas esta época não joga nada de jeito. O Benfica anda por baixo, os gajos vêem os pretos, jogadores oriundos das colónias, dar o salto para fora, libertam-se, finalmente. Os dirigentes do Benfica e do Belenenses, clube do Américo Tomaz, e até alguns do Sporting e do Porto andavam ao beija-mão da PIDE, não deixavam os rapazes mudar de clube. Porém, também não lhes pagavam nada de significativo. Olha o pateta do Eusébio, andou aí a correr por umas sandes e uns subsídios de cá, cará, cá, cá quando poderia ingressar no campeonato da RFA, auferiria aí um salário de ministro, ou mais... Às vezes penso que o rapaz raciocina com os pés... Valha-nos os exemplos do Rui Mingas, tão bom nas pistas de atletismo como nas cantigas, o Óscar e o Dinis, bons nas quatro linhas e fora delas, afinal fartaram-se de fintar os PIDES, andavam há muito feitos com o PAIGC e o MPLA e ao que consta o Hilário e o Manaca também tinham contactos com a FRELIMO...
Bom, o que interessa é que é domingo e toda a gente tem para onde ir. Porra, ainda há um ano atrás ninguém ia a lado nenhum, não se passava nada... Era sempre a mesma merda: missa, futebol, um filmeseco e nada... Deitar cedo porque o dia seguinte é segunda-feira, é dia de trabalho, há que apanhar o eléctrico, ninguém pega ao serviço depois da hora. Quem chegar atrasado um minuto vai para casa de castigo e perderá um dia de salário, com sorte senão for despedido.
Depois do 25 de Abril anda tudo maluco, já não respeitam ninguém, nem dormem, ele é festas, são os comícios, manifestações, eu sei lá... Basta um gajo dar um traque, logo se junta uma multidão a ver se teria sido uma granada, parecem andorinhas, de um lado para o outro, acorrendo a tudo o que bulir...
Dobro o Calhariz, na direcção do Largo de Camões, sem vontade de ir a lado nenhum, entretanto, passando em frente do Restaurante Príncipe do Calhariz, reparo que é o único de portas abertas, os frangos vão girando, no espeto, sobre as brasas, e penso: filho da puta do galego, o dono, cada galego, cada reaccionário...
Pela Rua das Flores e a do Alecrim descem pessoas como o caraças. Só poderá ser uma manifestação, mas a uma hora daquelas... Abeiro-me de dois ou três gajos, com ar de putos pê, pê, dês de có, có e pergunto:
- há praí alguma coisa, pá?
- Vamos pra Cascais, ao concerto.
- Então, mas isso não foi na semana passada, os Genesis?
- Esta semana há outro concerto, um grupo americano antifascista.
- Antifascista? Quero mas é que os imperialistas se caguem. Esses gajos que atuem contra a Guerra do Vietname!
- En pá, parece que o Vietname está prestes a acabar, os americanos vão abandonar.
- Abandonar? Diz antes levaram na pá, depois de, cobardemente, arrasarem uma Nação com armas químicas e tudo. Mesmo assim foram derrotados, mas agora dizem que abandonam unilateralmente. Antes não sabiamos nada, o fascismo estava feito com o imperialismo.
- E agora? Encostamo-nos a quem, aos soviétcos?
- E depois? Há mais de cinquenta anos que andamos debaixo da pata dos americanos e não nos deram nada...
- Pá, tu não sabes nada de política, a Suécia é que é bom, adeus!
- Adeus ó chuxa, vocês devem ser é neocapitalistas do PS.
Ao concerto, pensei. Que merda de concerto... Em Cascais, cheira-me a esturro, música é o que não falta no Rossio, Restauradores, Campo Pequeno, Alameda, ainda ontem no Pavilhão dos Desportos a LCI promoveu um espectáculo com o Zé Mário Branco a vinte e cinco tostões, em Cascais...
O movimento continua em direcção do Cais do Sodré, os gajos vão apanhar o comboio, quero lá saber... Eu gosto é das baladas do Adriano Correia de Oliveira e das manifestações contra a Guerra Colonial: “Nem mais um Soldado para o Ultramar!”
Numa esquina da Rua Garrett há cartazes de todos os partidos, anunciando festas, comícios e manifestações. Em todos é comum: O Povo Está com o MFA. Em alguns lia-se: Morte à PIDE, Morte à GNR! Julgamento Popular! Governo Popular!
Havia um motivo para aquela exaltação toda contra a PIDE, a GNR e os reaccionários, era o facto de ter havido o célebre 11 de Março de 1975, uma tentativa de golpe de Estado. Numa parede do lado contrário, umas folhas dactilografadas narravam o episódio:
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11.45 – Ataque aéreo ao RAL 1 por aviões e pára-quedistas da BA 3 e Reg. Caça. Pára-quedistas, Tancos. O aeroporto é ocupado por “paras” de Tancos e encerrado. Mais tarde forças fiéis ao COPCON vão para lá. Reabre à noite. No Carmo o cap. Lopes Mateus avisa o gen. Pinto Ferreira da contra-revolução e prende-o, com outros oficiais, numa sala da unidade. Oficiais contra-revolucionários: gen. Damião, maj. Garoupa (que saem de carro às 16.30 para se acolherem à embaixada da Alemanha Federal) e cor. Xavier de Brito que toma o comando da cavalaria. 12.45 – No exterior do RAL 1, diálogo entre Dinis de Almeida (do RAL 1) e Sebastião Martins (pára-quedista) acerca dos motivos do assalto. Segue-se ida dos dois comandantes, cor. Mourisca (RAL 1) e o maj. Mensurado (para), ao Estado Maior da F A, para entrar em acordo, que foi obtido pelas 14.30. A partir das 12.45 – Primeiro apelos à mobilização popular, por parte da Intersindical. Fazem-se as primeiras barricadas nas estradas de Vila Franca e depois em Setúbal. Não se apanha nenhum fugitivo mas interceptam-se algumas armas. Também em Lisboa serão encontradas armas numa casa. Os bancos não reabrem à tarde e há piquetes de trabalhadores (cuja vigilância viria a causar a prisão dos administradores do Banco Espírito Santo por tentativa de levantamento ilícito de milhões de escudos). Sindicatos organizam em Lisboa e no Porto piquetes nos locais de trabalho e em pontos estratégicos (EN), que precisem de protecção. A população, em diversos pontos do país, acorre aos quartéis a receber ordens. Fala-se em armas para o povo – e não só os partidos chamados de extrema-direita. Assalta-se a casa de Lisboa do gen. Spínola e as sedes dos partidos de direita (em Lisboa, o PDC e o CDS, mas no Porto foi também atacado o PPD). Fazem-se grandes fogueiras na rua com material encontrado nos locais. Cerca das 13 – Emissora Nacional declara-se a única voz autorizada e passa a transmitir exclusivamente informações da 5ª Divisão do Estado-Maior. 13.30 – Rádio Clube Português deixa de transmitir em onda média de Lisboa por ter sido atacado (estragos: 2 mil contos). Continua a transmitir em frequência modulada e onda média do Porto. 13.30 – Emissora Nacional – Capitão Clemente dá os primeiros elementos concretos. 13.30 – Entra a transmitir, em ligação, a Estação Rádio da Madeira (que seria protegida por forças do COPCON). 13.50 – Rádio Renascença interrompe a sua greve e entra a transmitir em simultâneo com RCP. Entram também, Rádio Ribatejo, Rádio Alto Douro, Rádio Altitude (Guarda). 14.40 – (Paras) levantam cerco. Confraternização. Entretanto, em Tancos, há hesitações dos sargentos e praças que desconfiam das ordens recebidas. Ricardo Durão vai com Salgueiro Maia dialogar com o gen. Spínola, chegado na véspera à noite com alguns oficiais e a mulher, em carros transportado armas. Este, espantado, verifica estar tudo perdido. O gen. Tavares Monteiro é mais tarde preso em Tancos pelos seus sargentos. 14.45 – Emissora Nacional transmite o primeiro comunicado do Gabinete do Primeiro-Ministro. 15 – “ Diário de Lisboa” é o primeiro a sair, com a cobertura dos acontecimentos. Fará três edições. 15.10 – Televisão – anuncia em breves palavras os acontecimentos. 15.25 – TV – entrevista com Otelo Saraiva de Carvalho. 16.00 – Mensagem do Presidente da República. 17.00 – Spínola chega a Talavera la Real, acompanhado de sua mulher e mais 15 oficiais, em quatro helicópteros. Está incomunicável. O governo espanhol não quer tomar nenhuma atitude de protecção. O general declara que não voltará a Portugal e fala em pedir asilo político ao Brasil, e mais tarde ao Chile. Soube-se que partiu para Buenos Aires, mas afinal recolheu ao Brasil. 17.15 – Discurso improvisado do Primeiro-Ministro. Primeiras informações, mais tarde corrigidas: Spínola e Galvão de Melo fugitivos, de carro, gen. Damião preso. Saber-se-á mais tarde que Spínola foi de helicóptero para Espanha, que Galvão de Melo está em Viseu desde manhã em visita normal e que o gen. Damião não fora preso. Anuncia-se a prisão de Rafael Durão, comandante dos pára-quedistas de Tancos, que se entregou. 17.30 – Mensagem de Rosa Coutinho. 17.30 – O gen. Pinto Ferreira aparece à janela do Carmo, já livre, e fala depois aos seus homens, reafirmando confiança neles porque foram enganados. 17.45 – Mensagem do comandante Jesuíno à Imprensa. Fala Mário Soares. Nova entrevista com Otelo Saraiva de Carvalho, transmitida pela TV (pelas 21.00) e, mais tarde, pelo RCP. 19.00 – Entretanto, todos os partidos convocam manifestações. Enquanto o PCP e o PS (recentíssimos amigos), se concentram no Campo Pequeno, com o Mes, FSP, MDP e Intersindical, no Carmo encontram-se dois independentes: o MRPP, vindo de Alcântara, a UDP, vinda do Rossio. Mas o principal local de manifestação popular foi junto ao RAL 1, pela noite adiante. Também no Porto e em Coimbra se fizeram manifestações unitárias e, no dia seguinte, também em Leiria, Beja, Setúbal, Viana do Castelo, Faro, Portalegre, o povo veio para a rua, ordeira e unitariamente, como lhe pediam. O PPD, que na província conseguia manifestar-se quase sem problema, em Lisboa esboçou uma manifestação motorizada mas foi muito atacado, na sua passagem pelo Rossio, onde esmurraram os carros e queimaram bandeiras, pelo que não se apresentou com delegação no Campo Pequeno. Nessa manifestação (mais disciplinada, mais política do que as dos primeiros dias de Abril e Maio), imperavam as palavras de ordem radicais, com grande lugar aos foras ao PPD. O que parece vir na sequência dos acontecimentos de Setúbal. 21.00 – Mensagem do Presidente da República em que dá a lista dos inculpados. 22.00 – RCP recomeça a transmissão em onda média, mas só retomará a programação normal no dia seguinte pelas onze horas. 01.00(dia12) – TV reportagem do ataque ao RAL 1. Mensagem do tem. Bargão dos Santos. Entretanto, Rádio Renascença decidiu, uma vez interrompida a greve, continuar a transmitir, em moldes que se coadunem com o actual momento político. Os trabalhadores prosseguem, não tendo havido intervenção por parte da administração.
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No meio de um cacho de homens, mulheres, raparigas e rapazes, acabo a leitura do jornal mural. Mais adiante outro grupinho em que os mais altos espreitam sobre a cabeça dos mais baixos. Estes lutam por avistar mais um texto mural, a custo, sobre o ombro de um velhote mal-cheiroso e a nuca de uma senhora bem-composta e perfumada, consigo ler a seguinte comunicação assinada por Jorge Feio, Fernanda Leitão e Carlos Pina:
“ Não se é jornalista seis horas por dia, a tantos contos por mês. É-se jornalista 24 horas por dia, mesmo estando desempregado. Não se é Português só quando toca o Hino. É-se Português minuto a minuto. Ama-se Portugal mesmo quando a História impõe a separação de territórios. Tudo o resto é retórica. Despojados e simples, vimos dar ao leitor um testemunho de consulta, feito a partir do que a Imprensa publicou na hora negra do 11 de Março de 1975. Somos independentes, não temos partido. Até 25 de Abril de 1974, batemo-nos pela Liberdade, pela Paz, pela Independência Nacional. Hoje, 16 de Março de 1975, batemo-nos pelo mesmo.”
Enquanto uns lêm outros discutem, cada um apresenta a sua versão. Todos falam uns com os outros como se se conhecessem, como se fossem amigos, colegas ou vizinhos, enfim, depois da Revolução, o povo de Lisboa nasceu para a comunição: uns concordam, outros argumentam e outros, ainda, ofendem-se mutuamente até há exaustão. Por mim vou descendo directo ao Chiado, viro à esquerda até ao fundo da Rua Nova do Almada. Mesmo aí, um homem, com um megafone, anuncia a vinda do Salvador, no tempo das trevas, um transeunte insulta-o, mas o homem faz orelhas moucas. A dois passos duas bancas montadas: do PCP, do PPD. Fico pasmado com a coragem da senhora, mal-encarada da banca do PPD, depois do que acabara de ler, estive mesmo para enfiar um grande pontapé naquela chafarica e deitá-la para longe, contive-me. Em cima de um improvisado palco, defronte do Arco Bandeira um rapaz, cabeludo e barbudo, com uma viola, cantando e tocando de qualquer maneira, gritava: “A cantiga é uma arma, há quem cante por cantar, há quem faça profissão de cantar e há aqueles que cantam de pantufas para não perder o lugar(...)”. Retomando o refrão: “A cantiga é uma arma, contra quem, Camaradas?”. À pergunta, alguns respondiam: “Contrá burguesia!” A entrar na Rua da Betesga, na direcção da Praça da Figueira, ia a cabeça de uma manifestação, com um pano, ostentando a inscrição: Povo-MFA. Os manifestantes gritam: o povo unido, jamais será vencido! MFA, o povo está contigo! PIDE, Julgamento, já! Reacção não passará! Independência prás colónias, já! Nem mais um soldado pró ultramar! Nem mais um embarque prá guerra!
Especado, vou observando os manifestantes, à procura de um lugar para entrar também e acompanhar nas palavras de ordem e pergunto a um qualquer: isto é organizado por quem? – a resposta: Sei lá, É contra a reacção, contra a guerra colonial! – atirou sem se deter...
Luís de Sousa Peixeira